Canoinhas
+11...+21° C
  • 23/10/2026 10:04

Sistema de Plantio Direto de Hortaliças completa 30 anos com benefícios de mais de R$ 126 milhões a produtores

';
  • Divulgação -

Imagine um sistema agrícola que reduz, em média, 33% dos custos de produção, e ainda entrega alimentos saudáveis, seguros, com equilíbrio biológico e ambiental. E, para completar, tem baixa emissão de carbono e é resiliente aos efeitos adversos das mudanças climáticas, como calor extremo, seca e excesso de chuva. Esse está completando 30 anos, tem DNA da Epagri e atende pela sigla SPDH, sistema de plantio direto de hortaliças. 

O Brasil destacou o 23 de outubro como Dia Nacional do Plantio Direto e Santa Catarina tem muito a comemorar. Em 2025, o plantio direto foi reconhecido pela Organização das Nações Unidas para a Alimentação e Agricultura (FAO) como modelo de tecnologia para o mundo. Em Santa Catarina, a adesão ao sistema foi de 3.322 hectares entre 2022 e 2025, segundo dados do Plano ABC+SC. A meta para 2030 é chegar a 7,7 mil hectares. 

A Epagri estima que, em 2025, o impacto econômico da tecnologia foi de R$126,7 milhões. Por meio da tecnologia, produtores de hortaliças têm aumentado a rentabilidade de suas lavouras, principalmente devido ao aumento da produtividade e à queda nos gastos com agroquímicos e na contratação de trabalhadores. 

De acordo com o extensionista Marcelo Zanella, coordenador de olericultura da Epagri, a rentabilidade depende do tipo de cultivo. O caso do chuchu é emblemático. Estudos mostram que, nos últimos cinco anos, a produtividade aumentou em 100% nas lavouras que substituíram o modelo tradicional pelo SPDH. Em 2025, o ganho foi de R$149 mil por hectare. O sistema também levou ao fim do uso de herbicidas e fungicidas e à queda de 80% na aplicação de inseticidas. 

Agricultura ligada à natureza

Não é milagre. O sucesso do plantio direto se deve a um conjunto de técnicas que, ao longo do tempo, devolvem e mantêm a fertilidade da terra nas hortas. Uma delas é a manutenção permanente de cobertura vegetal no solo. Vivas, as plantas de cobertura protegem, ciclam nutrientes, articulam e promovem atividade biológica na rizosfera. Após serem manejadas, se transformam em palhadas e funcionam como adubo natural e proteção ao sistema agrícola. 

Outro preceito do SPDH é a rotação e diversificação de culturas, que ajuda a quebrar ciclos de pragas e doenças, além de melhorar a estrutura e a qualidade do solo. O sistema também prega o revolvimento mínimo do solo, restrito à linha ou berço do plantio. Por último, o SPDH dissemina o manejo da nutrição das plantas baseado nas taxas diárias de absorção de nutrientes (TDA). Segundo Zanella, o objetivo desse conjunto de práticas é promover a saúde das plantas.

Pode parecer exagero, mas graças ao SPDH, o agricultor Thiago Walzburger continua no campo. Produtor de brócolis em Angelina, na Grande Florianópolis, ele conta que a família não sabia mais o que fazer para combater os fungos no solo. “Chegou um ponto que pensamos que teríamos que parar. Foi aí que buscamos o SPDH e, com ajuda da Epagri, começamos a retomar a produtividade da terra. Há cinco anos, 100% da nossa lavoura é de SPDH”, conta o agricultor.

Hoje, Thiago é graduado em Agronomia e, junto com a família, produz cerca de 330 mil brócolis em 11 hectares de lavoura. Para ele, o que mais ajuda no momento é a redução na contratação de mão de obra na propriedade, em torno de 30%, principalmente para fazer adubação e aplicação de defensivos. “Está cada vez mais difícil encontrar gente para trabalhar”, justifica. 

Em Antônio Carlos, na Grande Florianópolis, o casal Edésio Schmitt e Maria Lúcia Klein Schmitt é um dos precursores do SPDH. Os produtores aderiram ao sistema há 18 anos, depois de buscar ajuda para problemas como compactação do solo e alta incidência de insetos e nematóides. “Os principais ganhos para nós foram a diminuição no uso de agrotóxico e adubo e não precisar fazer o revolvimento do solo”, afirma Edésio. Na lavoura de 3,7 hectares ele e Lúcia plantam chuchu, mandioca, pitaia e maracujá. 

O casal não só recuperou a produtividade da lavoura, como se tornou referência em SPDH no Brasil. “Recebemos pesquisadores do mundo inteiro, como França, Estados Unidos, Rússia, Argentina. Professores da UFSC têm projetos aqui”, orgulha-se Edésio. O casal faz questão de anotar todas as visitas à lavoura e garante que o número já passa de 1,5 mil pessoas. “Desde que começamos com o SPDH, nunca pensamos em desistir. Pelo contrário, a cada ano estamos aprimorando o sistema”, afirma o produtor. 

Segundo Zanella, o sistema tem diminuído as perdas na lavoura em cerca de 35%. Entre os fatores que colaboram com o resultado estão a melhora na qualidade e uniformidade das plantas e a resiliência às mudanças climáticas. O SPDH evita o encharcamento do solo em excesso de chuvas, e armazena água em situação de seca. “A alta biodiversidade do ambiente de uma lavoura de SPDH também ajuda a proteger e reestruturar a planta após um evento adverso, garantindo a colheita”, explica. 

Vizinho da família Walzburger, em Angelina, o produtor Ryan Ehardt cresceu vendo os pais cultivando hortaliças no sistema de plantio direto. “Meu pai aderiu há muitos anos e quando comecei decidi continuar no SPDH. Como o solo está sempre coberto por palhadas, não temos erosão e não perdemos tantas verduras em função de chuvas, seca e calor”, explica Ryan. Produtor de brócolis, couve-flor e repolho, ele também diz que o SPDH facilita a lida na lavoura em tempos chuvosos. 

Qualidade de vida

O SPDH também traz mais qualidade de vida aos produtores. Primeiro em função da redução à exposição a agrotóxicos. Zanella conta que anos depois de ajudar na implantação do SPDH em uma lavoura de chuchu em Anitápolis, a mãe do proprietário lhe disse: “Eu queria te agradecer por tu teres salvado o meu filho. Ele já tinha ido para o hospital três vezes intoxicado e agora está saudável”. A adesão ao sistema fez a família praticamente zerar o uso de agrotóxicos. 

Outro impacto positivo de uma lavoura com o SPDH já consolidado é a possibilidade do agricultor ter folga no fim de semana. Não só porque há menos trabalho com a aplicação de agrotóxicos e adubos, mas também porque não há a preocupação comum em sistemas tradicionais de manter o solo limpo. Pelo contrário, em boa parte dos cultivos a convivência entre hortaliças e plantas espontâneas é benéfica e um princípio preconizado pelo SPDH, embora inicialmente possa ser difícil aos produtores aceitar as mudanças. 

“A nossa função, como extensionista, é provocar debates que vão construindo novos conhecimentos e melhores caminhos. Muitas vezes, o produtor tradicional de hortaliça vira uma máquina de produzir alimentos e esquece que há outras formas de cultivar que podem promover mais qualidade de vida para a família, com condições de trabalho menos cansativas, e qualidade de alimento aos consumidores”, afirma Zanella. Para o extensionista, o processo é lento e precisa ser feito respeitando o tempo do agricultor.

Na lavoura da família Walzburger, o pai e o avô de Thiago estranharam bastante as mudanças no começo. “Eles trabalharam mais de 30 anos com a rotativa. Imagina chegar e dizer para fazer de outro jeito? Tudo era novidade, no início não foi fácil. É uma mudança de cultura muito grande, por isso, não se faz de uma hora para a outra”, concorda o produtor. Dez anos depois, o SPDH continua surpreendendo positivamente o avô de Thiago: “Ele volta da lavoura e diz: a gente não suja mais nem a bota”. 

Por Cléia Schmitz, jornalista bolsista da Epagri/Fapesc


Governador Jorginho Mello autoriza construção da Barragem de Botuverá para conter enchentes em Brusque e região Anterior

Governador Jorginho Mello autoriza construção da Barragem de Botuverá para conter enchentes em Brusque e região

Atenção: Prefeitura de Três Barras convoca candidato aprovado no Concurso Público Próximo

Atenção: Prefeitura de Três Barras convoca candidato aprovado no Concurso Público

Deixe seu comentário